A maternidade com suas dores e delícias
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20 dezembro 2015

O Cantinho do Pensamento e porque eu NÃO RECOMENDO!!

Postado por: Rafa Manfroi

Desde que me tornei mãe conheci e li alguns livros best sellers sobre criação de filhos e como extinguir um comportamento “negativo” do bebê em 3 dias.
Como tive uma experiência difícil e conturbada com a chegada da Gabriella, minha primeira filha, “livros de receitas” eram super bem-vindos e serviam como um amuleto da sorte!! Quando eu abria, parecia me acalmar porque ele me dava exatamente o caminho que deveria seguir, caso acontecesse isso ou aquilo.

Junto com isso, após um tempo, comecei a usar o “cantinho do pensamento” como forma de disciplina com a Bibi e ensinar outros tantos pais a fazerem o mesmo, no meu trabalho como psicóloga clinica e escolar.

Pra mim, parecia não existir nada tão inofensivo e tão eficiente quanto o cantinho do pensamento. Minha filha me desobedecia, tornava a desobedecer e eu dizia: “Se você não obedecer você vai pro cantinho pensar no que você está fazendo.” E ali a colocava, sozinha, chorando, com milhões de coisas passando pela sua cabecinha e sem ninguém para olhá-la nos olhos e ajudá-la.

Diante de sua pouca idade e sua muita imaturidade, era essencial que ela tivesse auxilio para pensar no seu erro, se arrepender e achar uma saída melhor! Sozinha ela não teria condições nenhuma de o fazer.

Talvez por isso, por tantas vezes eu a via cutucando a unha do pé, cantando baixinho, mexendo no cabelo e etc.

Passavam-se os minutos, eu a liberava e fazia todas as perguntas pertinentes: “Você sabe por que a mamãe te colocou ali? O que você pensou? Interessante que ela dificilmente sabia me responder, a não ser fazer a promessa de não repetir o mesmo erro. Me abraçava e normalmente chorava o dobro do que tinha chorado lá sentada, no cantinho.

Não cometer mais o mesmo erro devia mesmo ser sua vontade, mas vamos pensar: “Será que uma criança de 2 ou 3 anos, que ainda não têm maturidade para lidar com perdas e frustrações, sentaria sozinha e pensaria no que de errado fez? Será que se arrependeria e acharia, sozinha, novas possibilidades? Acredito que não!!

Cantinho do pensamento

Outra reflexão: Será que uma criança dessa mesma idade, imatura e em fase de desenvolvimento, conseguiria não mais cometer os mesmos erros?

Esses dias, num aniversário, um menino puxou o cabelo do outro e o machucou. A mãe do menino foi se desculpar com a mãe daquele que havia sofrido a agressão e falou algo que eu achei incrível: “Eu sei que meu filho errou e te peço desculpas por ele, mas sei que por ser criança, ele ainda vai errar outras tantas vezes, por isso eu não posso te prometer que isso nunca mais vá acontecer. Posso apenas te garantir que vamos conversar com ele sobre o ocorrido e ensiná-lo.”
Nós, adultos, tendemos a pensar que disciplina está ligada a punição e castigo, enquanto na verdade, disciplina é algo que acontece diariamente, em todo o tempo, do acordar ao levantar e tem muito mais a ver com ensino do que com punição. Ensinar requer tempo, disposição, atenção aos detalhes do SEU FILHO, entrega e paciência.

Educar não é algo pra hoje e amanhã, vislumbrando resultados imediatos, é pra vida toda e as sementes que plantarmos nos nossos filhos serão colhidas por muitas e muitas gerações!! Essa verdade me estimula e muito me incentiva!

Por isso eu não considero o cantinho saudável, porque ele funciona até a página 3, a curto prazo, levando a criança a sair da zona de conflito e parar com seu comportamento negativo, mas a médio e longo prazo não funciona porque não gera mudança interna e aprendizado. Gera remorso e não arrependimento porque não gera reflexão, só culpa.

A criança até reflete, mas isso só acontece no momento que os pais conversam com ela e se propõem em ajuda-la e se os pais precisam estar ali e conversar, por que não o fazer com a criança sentada no sofá, na cama ou até mesmo no seu colo? Em nossa companhia e sob a nossa orientação? Por que a criança precisa estar sozinha e ter essa sensação de abandono e desprezo?

No cantinho, enquanto ela fica em silêncio fingindo que pensa sobre seus erros e imaginando como seria bom comer o bolo de chocolate que está na cozinha ou brincar com o cachorro, há uma mistura de sentimentos que nem ela entende direito: vergonha, tristeza, culpa. Ela lembra da cara feia da mamãe, da raiva e da impaciência dela enquanto a mandava para o castigo e muitas, muitas vezes não consegue fazer conexão de tudo isso com a sua atitude.

Aquele abraço forte e o choro profundo da Gabriella quando saia do cantinho passou a fazer todo sentido pra mim. Ela passava aqueles minutos terríveis sozinha, sem auxilio, sem conexão conosco, sem ter alguém que desse apoio e instrução, sabendo que estávamos tristes, chateados e decepcionados com a atitude que ela cometeu, muitas vezes sem nem entender ao certo por que aquilo era tão errado e reprovado por nós.

Precisamos entender que um mau comportamento não é apenas algo que precisa ser resolvido(como aquilo que eu buscava quando tive dificuldades no nascimento da Gabriella) mas compreendido. Ele quer nos falar sobre algo que a criança está sentindo e também necessitando e que por isso acaba reagindo daquela forma.

Uma criança que anda chutando e batendo nos amigos na escola, pode ser uma criança pedindo ajuda porque seus pais andam brigando e falando em separação. A agressividade é um grito de socorro porque seu mundo está despencando e ninguém faz nada pra ajudar. Batem na mãozinha, colocam pra pensar, fazem cara feia, brigam e até dizem: “Que menino feio, batendo nos amigos”! Mas o que ela realmente precisa é que olhem pra ela, a compreendam e a ajudem.

Você já pensou o que o comportamento do seu filho tem tentado te dizer?

Beijos no coração de vocês, com muito carinho e respeito. Sempre!!
Rafa.

Rafa Manfroi é psicóloga clínica e escolar, especialista em casais e familia. Trabalha com educação há mais de 10 anos e é autora do Blog Vamos Educar.

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