A maternidade com suas dores e delícias
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15 julho 2015

Filhos difíceis X Pais afetivamente indisponíveis

Postado por: Rafa Manfroi

As pessoas amam um rótulo. Acredito que no fundo isso acaba facilitando o “trato” com a criança, pois quando se descobrem um nome, uma doença ou uma síndrome que explique os motivos dos sintomas “difíceis” dela, o médico pode prescrever um remedinho e ufa!!! as coisas melhoram instantaneamente!! O pai consegue justificar ao mundo os problemas do seu filho, se livra de ser julgado um mau pai e a criança se exime da responsabilidade pelos seus comportamentos. Tudo se resolve. Aparentemente.

Há 10 anos eu trabalho com educação atendendo pais de alunos com dificuldades de aprendizagem ou comportamentais e perdi a conta de quantas vezes um pai sentou na minha frente e antes de me contar sobre quem é o seu filho, como ele veio ao mundo e do que ele gosta de fazer me disse: “Meu filho é hiperativo, ele tem TDAH.” Na maioria das vezes, porém, não se trata de um Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade, mas de algo bem mais simples e ao mesmo tempo bem mais profundo: Falta da presença dos pais. Pais que trabalham longas horas por dia, deixam seus filhos com babás ou no período integral de uma escola e que quando chegam em casa(essa é, na verdade, a pior parte) e se deparam com as tarefas de uma rotina normal, não querem se estressar nem brigar. Assim, acabam abrindo mão de exercerem sua autoridade corrigindo, cobrando, ensinando.

CriançasBagunça

Eu me recordo de um casal que eu atendi e eles me contavam que chegavam em casa depois das 19h e tudo em casa era um estresse. O banho era um verdadeiro caos, com seu filho gritando e chorando, se negando a obedecer. A saída daqueles pais, por incrível que pareça, foi parar de dar banho no filho deixando que ele dormisse sujo e que a tata, no outro dia de manhã, desse conta dessa tarefa que segundo ela, acontecia tranquilamente sem a presença deles. O que eles não percebiam, antes da nossa conversa, era que o filho precisava de toda aquela agitação e contradição para ter os pais olhando pra ele.
Sabe o que falta? Olhos nos olhos, tempo de qualidade juntos, limites. Faltam pais não só fisicamente mais próximos, mas afetivamente mais disponíveis para ouvir seus filhos quando chegam da escola cheios de uma bagagem emocional negativa, de darem colo para a criança nos seus momentos de tristezas e responderem pessoalmente às imensas perguntas que eles costumam fazer.

Educação é algo que acontece em tempo real e não existe tempo de qualidade sem o mínimo de quantidade. Com isso temos crianças agitadas, agressivas, manhosas, que no fundo estão nada mais nada menos do que tentando obter a atenção dos seus pais e dizer: “Oi, eu existo na sua vida!! Você um dia sonhou comigo, desejou ou permitiu que eu nascesse e agora está completamente longe de mim. Eu preciso de você!!”

Em mais de 10 anos como terapeuta eu nunca dei um diagnóstico de TDAH ou qualquer outro, pois para isso, é necessário que vários profissionais avaliem essa criança e juntos possam diagnosticá-la. Em vez disso, procuro saber o que esses pais esperam dessa criança e os ajudo a fazerem seu filho chegar lá, lembrando que para que eles mudem é inevitável a NOSSA mudança!!

Que sejamos mais presentes, mais amorosos e mais acessíveis aos nossos filhos, mesmo que o tempo seja curto e a vida corrida. Eles precisam de nós e nada nem ninguém pode nos substituir!!

Beijos no coração, 

Rafa. 

Rafaella Manfroi é Psicóloga Clinica e Escolar, Especialista em Família e Casais, atua há mais de 10 anos com Educação e Consultoria Familiar e é autora do Blog Vamos Educar. 

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